"Toda e qualquer tentativa de homenagear
Nelson Rodrigues com o próprio punho é natimorta. Não há pena nem tablet capaz
de transformar nossa condição de capacho sob o maior de todos. Foi ele o mais
visceral dos cronistas. O maior dos alquimistas. Que transformou peladeiros em
heróis, craques em semi-deuses, torcedores em Homeros. O jeito foi
reler “A Pátria em Chuteiras” e selecionar frases diversas, de diferentes
crônicas publicadas nos anos 50. E assim, abaixo, de forma orgulhosamente
covarde, homenagear Nelson com as palavras do próprio Nelson. Cada vez mais
atuais."
No dia em que a criatura humana perder a capacidade de admirar, cairá de quatro, para sempre. Eu só acredito nas coisas que arrancam lágrimas. Outrora, cada acontecimento tinha um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante.Todos os torcedores de futebol se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Têm o mesmo comportamento e xingam, com a mesma exuberância e os mesmos nomes feios, o juiz, os bandeirinhas, os adversários e os jogadores do próprio time.
A recentíssima jornada do escrete brasileiro em canchas européias. Foi algo de patético. Imersos até o pescoço numa vil modéstia, lá partiram os nossos craques para aprender na Europa. Há quem diga, inclusive patrícios nossos: – “O Brasil não tem caráter! O Brasil não tem moral!”. Eu sempre digo que sem alma não se chupa nem um Chicabon. A glória de um craque vive, não dos jogos de rotina, mas dos clássicos eternos. O torcedor não se lembra das peladas, mas tem uma memória implacável para as batalhas decisivas. Eis a verdade – há certos estados em que um time deixa de irritar, de enfurecer e passa a suscitar, tão somente, uma profunda compaixão. Mas eu confesso: – prefiro a blasfêmia, a praga, o nome feio e, enfim, a cólera, do que esse “coitadinho” quase terno e quase lírico, que ofende mais que uma cusparada.
Em 50, quase houve um suicídio nacional quando não fomos campeões do mundo. Éramos, todos nós, brasileiros, uma nação que quase toma formicida. Pois bem: – e em 58, ao conquistarmos o título, eis que houve, aqui, um hábito instantâneo à glória jamais imaginada. O nosso pileque cívico durou até o desembarque do escrete. Já no dia seguinte, porém, havia os descontentes, os fartos, os saturados. Sim, amigos: – o brasileiro reage ao bem que lhe fazem com uma gratidão amarga e quase ressentida. Mas eu vos digo: foi talvez necessária e benéfica a humilhação. Também o campeão do mundo precisa levar na cabeça para despertar. É possível que a seleção do Brasil volte a ser a melhor que já apareceu na Terra.


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